É comum o tutor sair da consulta com um papel cheio de siglas e números — VG, hemácias, leucócitos, plaquetas — e nenhuma ideia real do que aquilo significa além de “está tudo certo” ou “tem algo alterado”. Isso não é falha de comunicação proposital: o hemograma é, ao mesmo tempo, um dos exames mais simples de coletar e um dos mais ricos de interpretar, porque cada valor conta uma parte diferente da história.
Este guia não substitui a leitura do veterinário — várias alterações só fazem sentido quando cruzadas com o quadro clínico do animal — mas ajuda a entender o que cada bloco do exame está, de fato, medindo.

As duas partes do hemograma: série vermelha e série branca
O hemograma é dividido em duas grandes seções, que respondem perguntas diferentes.
Série vermelha: como está o transporte de oxigênio
Essa parte avalia os glóbulos vermelhos (hemácias/eritrócitos), responsáveis por carregar oxigênio pelo corpo.
- Hemácias / eritrócitos: a contagem total de glóbulos vermelhos. Valores baixos apontam para anemia; valores altos (mais raros) podem indicar desidratação ou, em casos específicos, policitemia.
- Hematócrito (VG – volume globular): a proporção do sangue ocupada por glóbulos vermelhos. É um dos indicadores mais usados na prática clínica para confirmar anemia e acompanhar sua evolução.
- Hemoglobina: a proteína dentro da hemácia que efetivamente carrega o oxigênio. Costuma andar em conjunto com o hematócrito.
- Índices hematimétricos (VCM, HCM, CHCM): medem o tamanho e a concentração de hemoglobina dentro de cada hemácia, o que ajuda a diferenciar os tipos de anemia (por exemplo, anemia por deficiência de ferro costuma ter células menores, enquanto anemias regenerativas apresentam outro padrão).
- Reticulócitos: hemácias jovens, ainda imaturas. A contagem de reticulócitos é o que diz se a medula óssea está respondendo à anemia (anemia regenerativa) ou não (anemia não regenerativa) — uma diferença que muda completamente a investigação da causa.
Série branca: como está a defesa do organismo
Essa parte avalia os glóbulos brancos (leucócitos), a linha de frente do sistema imunológico.
- Leucócitos totais: a contagem geral de células de defesa. Valores altos (leucocitose) costumam indicar infecção, inflamação ou estresse; valores baixos (leucopenia) podem indicar infecções virais específicas ou supressão da medula óssea.
- Neutrófilos: o tipo mais comum de leucócito, geralmente os primeiros a responder a uma infecção bacteriana. Um padrão chamado “desvio à esquerda” (neutrófilos mais jovens circulando) costuma indicar uma infecção ativa e exigente para o organismo.
- Linfócitos: relacionados à resposta imune mais específica, incluindo infecções virais e processos crônicos.
- Monócitos: aumentam em processos inflamatórios crônicos ou infecções mais prolongadas.
- Eosinófilos: costumam subir em quadros alérgicos ou parasitários (vermes).
- Basófilos: raramente alterados isoladamente, mas fazem parte do quadro geral.
Plaquetas: a coagulação
Contam a capacidade do sangue de coagular. Valores baixos (trombocitopenia) aumentam o risco de sangramentos e podem estar ligados a doenças infecciosas transmitidas por carrapatos (como a erliquiose), entre outras causas.
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Por que o mesmo número pode significar coisas diferentes
Um hemograma nunca é lido sozinho. Hemácias levemente baixas em um cão que acabou de ter uma cirurgia contam uma história diferente das mesmas hemácias baixas em um cão que não come há uma semana. É por isso que o mesmo exame, com valores parecidos, pode levar a condutas completamente diferentes dependendo do histórico e do exame físico do animal — e por que “pesquisar o valor na internet” isoladamente costuma gerar mais dúvida do que resposta.
Quando o hemograma é pedido
Alguns cenários comuns em que solicitamos o exame:
- Check-up de rotina, especialmente em cães acima de 5-7 anos.
- Antes de qualquer procedimento cirúrgico (exame pré-anestésico).
- Investigação de sintomas como fraqueza, palidez de gengiva, perda de apetite ou febre.
- Acompanhamento de doenças crônicas já diagnosticadas.
- Suspeita de doenças transmitidas por carrapato, como erliquiose e babesiose — bastante relevantes na região do Rio de Janeiro.
Como se preparar para o exame
Na maioria dos casos, o hemograma não exige jejum — mas se ele for pedido junto com outros exames bioquímicos, o jejum pode ser necessário. A orientação exata deve vir da própria clínica no momento do agendamento, já que varia conforme os exames combinados.
Acompanhamento na Aukemia Veterinária
Na Aukemia Veterinária, o hemograma é processado no próprio laboratório da clínica, o que permite ter o resultado e a interpretação já na mesma consulta em boa parte dos casos — importante especialmente quando o exame faz parte da investigação de um quadro agudo.
Este conteúdo tem caráter educativo. A interpretação de um hemograma deve sempre ser feita por um médico-veterinário, em conjunto com o exame físico e o histórico do animal.
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